Entenda o que é, como se faz o diagnóstico e como funciona o tratamento atual pelo Método Ponseti — explicado de forma clara para as famílias.

O que é o pé torto congênito?

O pé torto congênito (PTC) é uma deformidade presente desde o nascimento, em que o pezinho do bebê aparece torcido — geralmente voltado para dentro e para baixo.

É mais frequente em meninos e ocorre em cerca de 1 a cada 1.000 nascimentos. Em boa parte dos casos — quase metade — afeta os dois pés ao mesmo tempo (forma bilateral). Não é causado apenas pela posição do bebê dentro do útero, e não se corrige sozinho: precisa de tratamento adequado.

No passado, o tratamento era baseado principalmente em grandes cirurgias, sem preparo prévio com gesso. Os resultados, muitas vezes, eram pés rígidos, doloridos e com cicatrizes extensas. Hoje, com o Método Ponseti, alcançamos resultados muito melhores e de forma bem menos invasiva — com gessos trocados semanalmente e um pequeno procedimento no tendão de Aquiles.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico do pé torto congênito é clínico: feito no exame físico do recém-nascido, pelo pediatra ou pelo ortopedista. Nenhum exame de imagem — como raio-x ou ultrassom — é necessário para confirmar o diagnóstico.

Durante a gestação, o ultrassom morfológico pode dar uma pista de que o bebê tem o PTC, mas a confirmação só acontece no nascimento. O pé torto é definido por quatro componentes de deformidade e uma característica essencial:

Cavo — arco aumentado Aduto — frente do pé virada para dentro Varo — calcanhar virado para dentro Equino — pé apontando para baixo

A característica essencial é a rigidez: o pezinho é “duro” e não se move livremente para todos os lados. Quando o pé tem esses achados e é rígido, falamos em pé torto congênito.

Existe ainda uma situação parecida: quando o pé tem a aparência de torto, mas é flexível. Nesse caso, trata-se de um pé torto posicional, que costuma não precisar de tratamento específico. Diferenciar os dois é justamente o papel da avaliação especializada.

Qual o tratamento mais indicado hoje?

O tratamento de escolha é o Método Ponseti, criado pelo médico Ignacio Ponseti na década de 1950. Por muitos anos a técnica não foi amplamente difundida, mas nas últimas décadas tornou-se conhecida mundialmente e foi confirmada por estudos como o tratamento “padrão-ouro” — superior às antigas técnicas cirúrgicas. Hoje, é a opção mais adequada e segura para o pé torto congênito.

Como funciona o tratamento com gessos?

A técnica se baseia na manipulação delicada do pé, seguida da aplicação de um gesso que vai da coxa até o pé (inguino-podálico). As trocas são semanais, e geralmente são necessários de 3 a 5 gessos para trazer o pé a uma posição adequada.

Em casos mais graves, ou associados a condições como artrogripose e mielomeningocele, costumam ser necessárias mais trocas. Cada caso é avaliado individualmente.

A pequena cirurgia: tenotomia do tendão de Aquiles

Ao final da série de gessos, conseguimos corrigir três das quatro deformidades — o cavo, o aduto e o varo. Na maioria dos casos, porém, os gessos não conseguem, sozinhos, levar o pezinho para cima, ou seja, corrigir o equino.

Para completar a correção, realiza-se um pequeno procedimento chamado tenotomia do tendão de Aquiles (tendão calcâneo), que faz parte do próprio Método Ponseti. Pontos importantes para tranquilizar a família:

  • É feito com anestesia local, sem necessidade de intubar o bebê.
  • Não exige jejum prolongado nem coleta de exames de sangue.
  • Pode ser realizado no consultório ou no centro cirúrgico, sempre com anestesia local.
  • O bebê pode voltar a mamar logo após o procedimento.
 

Depois da tenotomia, é colocado um novo gesso — agora com o pezinho apontando para cima — que permanece cerca de 3 semanas, sem trocas.

Como não são dados pontos na pele, é comum um pequeno sangramento atrás do gesso nos primeiros dias. Isso é esperado e não deve assustar. Em caso de dúvida sobre a quantidade, avise o seu médico.

A fase da órtese de abdução — a mais importante

Terminado o período de gesso, começa a fase da órtese de abdução (também chamada de órtese de Ponseti, órtese de Denis Browne ou “botinhas de pé torto”). Costumo dizer às famílias que esta é a parte mais importante do tratamento — e a que mais depende dos pais.

Durante a fase dos gessos, o controle está nas mãos do médico; os pais só precisam trazer o bebê para as trocas e cuidar do gesso. Já a fase da órtese depende do uso correto em casa, e é ela que mantém a correção conquistada. A órtese deve estar disponível para uso imediato assim que o gesso for retirado. O modelo ideal é indicado pelo médico.

Por quanto tempo a órtese é usada?

A órtese de abdução deve ser usada 23 horas por dia nos primeiros 3 meses após a retirada do gesso — ou seja, o dia inteiro, exceto para o banho e trocas de roupa. Depois desse período, passa a ser usada por cerca de 14 horas por dia, preferencialmente durante o sono, até por volta dos 4 anos de idade.

Muitos pais estranham um tratamento tão longo, mas é justamente esse uso nos primeiros anos que garante a manutenção da correção.

Atenção

Não usar a órtese corretamente é a maior causa de recidiva — ou seja, do pé voltar a entortar. Se isso acontece, o tratamento pode ter que ser reiniciado. Por isso, o acompanhamento próximo nesta fase é essencial, com consultas mais frequentes no início.

Resumo

  • O pé torto congênito é tratado pelo Método Ponseti, considerado o "padrão-ouro".
  • São feitas trocas semanais de gesso, seguidas de uma pequena cirurgia: a tenotomia do tendão de Aquiles.
  • O período engessado dura, em média, cerca de 8 semanas, podendo variar.
  • Depois, a órtese de abdução é usada 23h/dia nos primeiros 3 meses e ~14h/dia (no sono) até cerca dos 4 anos.
  • A maior causa de recidiva é o uso inadequado da órtese de abdução.

Fontes e leitura recomendada

Ponseti International Association · Global HELP (material educativo sobre o Método Ponseti). Conteúdo informativo; não substitui a avaliação médica individual.

Perguntas frequentes

O tratamento atrasa o desenvolvimento do meu filho?+
Não. Quando o tratamento é feito no início da vida, não há atraso no desenvolvimento — o bebê engatinha e anda no tempo esperado. No período de gesso e de órtese em tempo integral, a criança ainda nem rola sozinha; depois, com o uso parcial da órtese, fica livre durante o dia para se desenvolver normalmente.
Ele terá restrição para esportes no futuro?+
Não. As crianças tratadas pelo Método Ponseti tendem a ter pés flexíveis, funcionais e sem dor. Há, inclusive, atletas profissionais que tiveram pé torto congênito na infância e foram tratados por esse método.
É verdade que o pé tratado fica um pouco menor?+
Nos casos unilaterais, sim: mesmo com tratamento bem-feito, o pé afetado tende a ser discretamente menor que o outro, e a panturrilha um pouco mais fina. Isso, porém, não causa prejuízo de função.
Com quantas semanas de vida devo procurar tratamento?+
O quanto antes. As primeiras semanas são o período ideal, porque o pé do recém-nascido é mais maleável e responde melhor aos gessos. Se o tratamento já foi iniciado em outro serviço, também é possível avaliar e dar continuidade.

CONHEÇA O ESPECIALISTA

Dr Douglas Prina

Ortopedista pediátrico dedicado à reconstrução óssea e ao tratamento de deformidades dos membros na infância — incluindo o pé torto congênito, conduzido pelo Método Ponseti. Une técnica atualizada a um cuidado próximo, em que a família entende cada etapa do tratamento.

Acredito que informação clara e decisão no momento certo fazem toda a diferença: tratar quando é hora de tratar e acompanhar quando é hora de acompanhar.

Atuação acadêmica — HU-USP Foco em reconstrução óssea Ortopedia pediátrica